2.12.13

Violência Obstétrica - o que é isso?

Não doutor, você não será considerado um monstro por fazer cesarianas, tampouco será canonizado por assistir partos normais... não vamos causar ainda mais confusão! Entenda que sua formação foi insuficiente nas condutas com base nas evidências científicas e no respeito aos direitos humanos. É disso que se trata a violência obstétrica...

A violência obstétrica é uma triste realidade brasileira, considerada uma violação de direitos humanos e precisa ser discutida e debatida para a compreensão e eliminação desta situação que, segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo atinge 1 em cada 4 mulheres no momento do parto. Ao evidenciar a violência obstétrica, estamos alertando a sociedade sobre a violação dos direitos das mulheres na assistência à saúde reprodutiva.


A violência obstétrica pode acontecer em diversos momentos da gestação, mas é no momento do parto ou em situações de abortamento que os comportamentos violentos são mais evidentes, com agressões emocional e física as mulheres e seus bebês, tanto no sistema público quanto no sistema privado de saúde.

Uma das melhores matérias sobre o assunto foi publicada pela Revista Fórum sob o título "Na hora de fazer não gritou" esta frase que é tão comumente repetida pelos profissionais que atendem parto e mostra uma das faces do descaso e humilhação sofrido pelas mulheres nos hospitais.

A violência obstétrica vem ganhando espaços importantes de discussão. O Fórum Mundial de Direitos Humanos terá neste ano a mesa-redonda "Violência Obstétrica e Direitos Humanos: o direito à dignidade na assistência à saúde materna e o protagonismo das mulheres". O objetivo é debater a violência simbólica, emocional e física à qual milhares de mulheres brasileiras são submetidas durante o parto, a gravidez e o pós-parto, nos sistemas de saúde público e privado.



Existem 2 documentários disponíveis no Youtube onde são mostrados depoimentos e cenas das situações vividas por mulheres quem foram agredidas verbal e emocionalmente, são relatos de descaso, ameaças de punição, negligência, desrespeito à lei do acompanhante, realização de procedimentos dolorosos e desnecessários sem consentimento e informação para a mulher. É comum as mulheres se sentiram ameaçadas pela atitude dos profissionais que as atenderam, muitas mulheres deixam de perguntar suas dúvidas e até mesmo deixam de procurar assistência por medo de serem tratadas com desdém pelos profissionais da saúde.


Violência obstétrica - a voz das brasileiras: Este documentário foi lançado no dia 17 de novembro de 2012, no Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, ocorrido em Porto Alegre. O vídeo de 52 minutos está publicado no youtube, é um compilado de depoimentos recolhidos através de uma campanha pela internet para dar voz às mulheres que sofreram violência obstétrica. Este material tem sido usado em diversas reuniões para discussão da qualidade da assistência obstétrica no Brasil, os relatos são chocantes e revoltantes e provocam reflexões.


O documentário "A dor além do parto" foi produzido como trabalho de conclusão do curso de direito da Universidade Católica de Brasília. Com participação da médica obstetra Dra. Melania Amorim, autora de artigos científicos sobre as práticas assistenciais em obstetrícia, de Esther Vilela, coordenadora nacional da Rede Cegonha, da doula Adèle Valarini, de profissionais do direito, de mulheres que foram vítimas de maus tratos no parto, o documentário fala claramente sobre as práticas rotineiras dos hospitais brasileiros que mutilam, ferem e por vezes matam mulheres e bebês. Fica claro o impacto das lesões corporais graves na obstetrícia, inclusive com um relato chocante de uma cesariana feita sem anestesia, descumprimento de leis e transtornos emocionais por consequência da violência obstétrica.
Neste link você encontra vários outros textos sobre violência obstétrica.


O que pode ser considerado violência obstétrica?

- Impedir que a mulher seja acompanhada por alguém de sua preferência, familiar de seu círculo social.
- Tratar uma mulher em trabalho de parto de forma agressiva, não empática, grosseira, zombateira, ou de qualquer forma que a faça se sentir mal pelo tratamento recebido.
- Tratar a mulher de forma inferior, dando-lhe comandos e nomes infantilizados e diminutivos, tratando-a como incapaz.
- Submeter a mulher a procedimentos dolorosos desnecessários ou humilhantes, como lavagem intestinal, raspagem de pelos pubianos, posição ginecológica com portas abertas.
- Impedir a mulher de se comunicar, tirando-lhe a liberdade de telefonar, usar celular, caminhar até a sala de espera.
- Fazer graça ou recriminar por qualquer característica física como por exemplo obesidade, pelos, estrias, cor da pele, ou outros.
- Fazer graça ou recriminar por qualquer comportamento como gritar, chorar, ter medo, vergonha etc.
- Fazer qualquer procedimento sem explicar antes o que é, por que está sendo oferecido e acima de tudo, SEM PEDIR PERMISSÃO.
- Submeter a mulher a mais de um exame de toque (ainda assim quando estritamente necessário), especialmente por mais de um profissional, e sem o seu consentimento, mesmo que para ensino e treinamento de alunos.
- Dar hormônios para tornar mais rápido e intenso um trabalho de parto que está evoluindo normalmente.
- Cortar a vagina (episiotomia) da mulher quando não há necessidade (discute-se a real necessidade em não mais que 5 a 10% dos partos).
- Dar um ponto na sutura final da vagina de forma a deixá-la menor e mais apertada para aumentar o prazer do cônjuge (“ponto do marido”).
- Subir na barriga da mulher para expulsar o feto Manobra de Kristeller (pressão no fundo do útero) - Submeter a mulher e/ou o bebê a procedimentos feitos exclusivamente para treinar estudantes e residentes.
- Permitir a entrada de pessoas estranhas ao atendimento para “ver o parto”, quer sejam estudantes, residentes ou profissionais de saúde, principalmente sem o consentimento prévio da mulher e de seu acompanhante com a chance clara e justa de dizer não
- Fazer uma mulher acreditar que precisa de uma cesariana com base em riscos imaginários ou hipotéticos não comprovados (o bebê é grande, a bacia é pequena, o cordão está enrolado).
- Submeter uma mulher a uma cesariana desnecessária, sem a devida explicação dos riscos que ela e seu bebê estão correndo (complicações da cesárea, da gravidez subsequente, risco de prematuridade do bebê, complicações a médio e longo prazo para mãe e bebê).
- Dar bronca, ameaçar, chantagear ou cometer assédio moral contra qualquer mulher/casal por qualquer decisão que tenha(m) tomado, quando essa decisão for contra as crenças, a fé ou os valores morais de qualquer pessoa da equipe, por exemplo: não ter feito ou feito inadequadamente o pré-natal, ter muitos filhos, ser mãe jovem (ou o contrário), ter tido ou tentado um parto em casa, ter tido ou tentado um parto desassistido, ter tentado ou efetuado um aborto, ter atrasado a ida ao hospital, não ter informado qualquer dado, seja intencional, seja involuntariamente.
- Submeter bebês saudáveis a aspiração de rotina, injeções e procedimentos na primeira hora de vida, antes que tenham sido colocados em contato pele a pele e de terem tido a chance de mamar.
- Separar bebês saudáveis de suas mães sem necessidade clínica.

Você pode e DEVE denunciar se sofreu violência obstétrica! Para denunciar:

 1) Exija seu prontuário no hospital (ele é um documento seu, que fica depositado no hospital, mas as cópias devem ser entregues sem questionamento e custos).

 2) Escreva uma carta contando em detalhes que tipo de violência você sofreu e como se sentiu.
 —> Se o seu parto foi no SUS, envie a carta para a Ouvidoria do SUS, com cópia para a ouvidoria do Hospital, para a Diretoria Clínica, para a Secretaria Municipal de Saúde e para a Secretaria Estadual de Saúde.
 —> Se o seu parto foi em hospital da rede privada, envie sua carta para a Diretoria Clínica do Hospital, com cópia para a Diretoria do seu Plano de Saúde, para a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e para as Secretarias Municipal e Estadual de Saúde.

Existem outras instâncias de denúncia, dependendo da gravidade da violência recebida, mas um advogado deveria ser consultado. Para evitar este tipo de violência você deve procurar uma assistência humanizada. E se infelizmente já passou por algum abuso, deve denunciar! Não se cale.

fontes: www.cientistaqueviroumae.com.br e www.euqueropartonormal.com.br

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